Nos últimos anos, a vida de crianças e adolescentes mudou de forma profunda. A internet chegou definitivamente a quase todos os lares brasileiros e passou a fazer parte do cotidiano familiar de um jeito impossível de ignorar. Em 2024, cerca de 83% dos domicílios do país tinham acesso à internet, chegando a 100% entre famílias da classe A e a 68% nas classes D e E, segundo dados do NIC.br e do Cetic.br (TIC Domicílios 2024). Há vinte anos, eram apenas 13% dos lares conectados, o que mostra como a tecnologia deixou de ser algo distante e passou a atravessar estudo, lazer, relações sociais e a própria construção da identidade.
Entre crianças e adolescentes, essa presença é ainda mais intensa. Hoje, 93% dos jovens de 9 a 17 anos usam a internet, na maioria das vezes pelo celular, de acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Cetic.br. Esse acesso amplia oportunidades de aprendizagem, informação e expressão, mas também expõe esse público a desafios importantes. Dados recentes mostram que 29% dos jovens afirmam já ter sido ofendidos online e 42% dizem ter visto situações de discriminação nas redes sociais (Cetic.br, TIC Kids Online Brasil 2025). Esses números deixam claro que falar sobre uso seguro, crítico e responsável da internet não é exagero, é uma necessidade concreta.
Um ambiente digital cada vez mais complexo
Esse cenário se torna ainda mais desafiador com a rápida expansão da inteligência artificial. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, DALL·E, Midjourney e Sora já fazem parte do cotidiano, muitas vezes sem que adultos compreendam plenamente como funcionam. Um levantamento da Fundação Itaú em parceria com o Datafolha indica que 93% das pessoas já utilizam alguma tecnologia que envolve inteligência artificial, mas 46% não sabem explicar o que ela significa e 18% nunca ouviram falar sobre o tema. Na prática, isso significa que crianças e adolescentes já convivem com esse universo enquanto pais e educadores ainda estão tentando entendê-lo.
O avanço dessas tecnologias também permitiu a criação de conteúdos cada vez mais sofisticados, como os chamados deepfakes, vídeos e imagens manipulados por inteligência artificial. Estudos publicados em 2024 na plataforma científica arXiv mostram que muitos sistemas de detecção de deepfake, inclusive os abertos ao público, já apresentam dificuldade para identificar versões mais recentes dessas manipulações. Isso torna cada vez mais difícil distinguir o que é real do que foi totalmente criado por máquinas, ampliando riscos de enganos, golpes e desinformação.
Educação midiática como proteção e formação cidadã
Diante desse contexto, cresce a importância da Educação Midiática e Informacional, um conjunto de habilidades que ajuda crianças, jovens e adultos a buscar informação com segurança, avaliar conteúdos, compreender como eles são produzidos e agir com responsabilidade no ambiente digital. A UNESCO alerta há anos que essas competências são essenciais para que cidadãos consigam navegar de forma ética e crítica no ecossistema informacional contemporâneo, especialmente em contextos de excesso de informação e circulação de conteúdos manipulados.
O UNICEF também reforça que a educação midiática é uma das principais estratégias de proteção de crianças e adolescentes no ambiente online, ao contribuir para o desenvolvimento de autonomia, pensamento crítico e capacidade de reconhecer riscos digitais, como cyberbullying, desinformação e exploração.
O debate no Brasil e o papel da escola
No Brasil, esse debate ganhou força nos últimos anos. A Base Nacional Comum Curricular, documento que orienta os currículos da educação básica, já prevê competências relacionadas ao uso crítico e ético das tecnologias digitais, reconhecendo que a formação cidadã também passa pelo ambiente online.
Em 2023, o Governo Federal lançou a Estratégia Brasileira de Educação Midiática, coordenada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, com foco em ações de formação e campanhas educativas para diferentes faixas etárias. Mais recentemente, em 2025, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação apresentou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que inclui diretrizes sobre o uso responsável da IA e reconhece o papel da educação na preparação da sociedade para esse novo cenário tecnológico.
Escola, família e tecnologia: um desafio compartilhado
O ambiente digital se tornou um espaço central na vida de adolescentes. É ali que constroem identidade, relações, repertório cultural, opiniões, vínculos afetivos e também inseguranças profundas. A família segue sendo a principal referência afetiva, e a escola continua como espaço fundamental de formação cidadã e desenvolvimento do pensamento crítico. Mas ambos passaram a enfrentar desafios novos e simultâneos, como desinformação, cyberbullying, exposição excessiva da intimidade, ansiedade digital, impacto de filtros de imagem, uso compulsivo de telas, golpes, manipulação algorítmica, jogos online de alto risco e a presença crescente da inteligência artificial generativa.
O papel do Conecta Bem Brasil
O Conecta Bem Brasil nasce com a missão de construir uma ponte entre escola, família e estudantes, criando espaços de orientação, diálogo, acolhimento e fortalecimento da convivência digital. Atuamos unindo conhecimento técnico, prática pedagógica e cuidado emocional, com o objetivo de apoiar a construção de uma cultura digital mais segura e saudável.
Formar leitores críticos não significa afastar crianças das telas, mas ajudá-las a conviver melhor com elas, com autonomia, responsabilidade e senso crítico, aproveitando os benefícios da tecnologia para aprender, criar, participar da vida em sociedade e se desenvolver profissionalmente.
Por Ana Beatriz Magalhães